sábado, 2 de abril de 2016

Dia Mundial da Poesia de 2016


Lagos, 21 de Março de 2016
sobre O Dia Mundial da Poesia 2016

O Dia Mundial da Poesia deste ano reporto-o aos poetas da minha adolescência, entre os quais se encontra em lugar de destaque Luís Vaz de Camões. Escolho a sua lírica e de entre esta, naquela altura, os poemas que mais me deslumbravam era
1.     Descalça vai para a fonte
2.     Endechas a Bárbara escrava
3.     Amor é fogo que arde sem se ver
Os quais transcrevo de seguida:
Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
Vai formosa e não segura.

Leva na cabeça o pote
O testo nas mãos de prata
Cinta de fina escarlata
Sainho de chamalote;
Traz a vasquinha de cote
Mais branca que a neve pura:
Vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado
Tão linda que o mundo espanta;
Chove nela graça tanta
Que dá graça à formosura:
Vai formosa e não segura.à

Endechas a Bárbara escrava
Aquela cativa
Que me tem cativo
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores:
Rosto singular;
Olhos sossegados
Pretos e cansados
Mas não de matar;

Uma graça viva
Que neles lhe mora
Para ser senhora
De quem é cativa;
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de amor!
Tão doce a figura
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa:
Nela enfim descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo
E, pois nela vivo
É força que viva. à

Amor é fogo que arde sem se ver
Amor é um fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem-querer
É um andar solitário entre a gente
É um nunca contentar-se de contente
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo amor? à

Assim festejei este ano o Dia Mundial da Poesia e agradeço ao grande poeta Luís Vaz de Camões a obra bela, genuína e excelente e também tão clarificadora para os adolescentes dando os seus primeiros passos nesta área. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Questões do Português - 6


Sobre “O Mais Recente Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Há muito que este Acordo me incomoda. A partir do momento em que tomei conhecimento do seu conteúdo. É a maior desvirtualização da língua portuguesa que conheço. Não consigo aceitar a maior parte das alterações que foram feitas.
þ Não concordo que se retirem as consoantes mudas de palavras, as quais existem nas outras línguas europeias, como:
Excepção, excepcional,
Correcto, corrector,
Objectivo, objectar, objectividade,
Recepção, receptivo, receptividade,
Perspectiva,
Prospecção
Colecta, colectividade, colecção,
Electricidade, electrónica, eléctrico,
Actividade, activo,
Actualidade, actual,
Óptimo, optimizar,
Adopção, adoptar, adoptado,
Factura, ….
A verdade é que estas palavras têm duas sílabas tónicas; umas delas é-lhes dada por estas consoantes mudas que desempenham a função de abrir ao máximo a vogal.
þ Não concordo que, na integração na nossa língua de palavras estrangeiras, se conserve, por exemplo, “ou” francês que se representa pela letra u, alterando as outras sílabas, como:
Bouquet (fr)  ® bouquê (port). Não faz sentido. ® buquê (port), faz sentido.
Cocktail (ing) ® coctel (port), faz sentido.
Stress ® stresse (não faz sentido. Ter-se-ia de escrever setresse). Acredito que a melhor solução é adoptar a palavra inglesa ® stress.
þ Não concordo que os nomes próprios dos meses se escrevam com letra minúscula porque é regra básica que os nomes próprios se iniciam sempre com letra maiúscula.
Mês, meses ® nome comum.
Janeiro, Fevereiro, …  ® nomes próprios de mês
Como:
Mulher ® nome comum.
Maria, Ana, Lucinda, Francisca, Fátima, … ® nomes próprios de mulher.
Acho uma aberração das piores impor este Acordo nas escolas, instituições públicas, … Se tem de ser, que fique apenas no papel; mesmo assim ainda é difícil de aceitar!!!!!!!! r




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5.º – Tempo de Poesia

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Questões do Português – 5

Lagos, 20 de Janeiro de 2016

sobre “Advérbios de Lugar
            Podemos considerar estes relacionados com áreas:
cá ≠ lá
O advérbio de lugar utiliza-se quando se pretende referir a uma área onde estamos inseridos:
            Ex: Cá em casa;
            Ex: Cá em Lisboa;
            Ex: Cá em Portugal;
            Ex: Cá na Europa.
            E opõe-se ao advérbio de lugar que se utiliza para áreas onde não estamos inseridos:
Ex: Lá na tua casa;
Ex: Lá onde trabalho, na Inglaterra;
Ex: Lá na China.
Consideremos agora os advérbios de lugar relacionados com posições:
Aqui ≠ aí ≠ ali ≠ além ≠ acolá
            Aqui » utiliza-se para indicar objectos que se encontram junto de quem fala, o emissor.
            Ex: Aqui está o que procuras. (o objecto encontrado está com a pessoa que o encontrou)
            » utiliza-se para indicar objectos que se encontram junto da pessoa com quem se fala, o receptor.
            Ex: Não vês a caneta junto ao teu livro?
            Ali » utiliza-se para indicar objectos que se encontram bem perto das duas pessoas, emissor e receptor.
            Ex: Os guardanapos estão ali na mesinha de apoio.
            Além » utiliza-se para indicar objectos/pessoas que se encontram fora do espaço onde se encontram emissor e receptor, mas que é possível ainda visualizá-los.
            Ex: Se quiseres ir para além tens de dar a volta.
            Acolá » utiliza-se para indicar espaços que se visualizam sobre objectos/pessoas que podem ou não estar lá.
            Ex: Acolá mora uma velhota que já quase ninguém a vê.
            Ex: O tiro que se ouviu saiu dacolá (de acolá).
            É isto. Talvez tenha conseguido tirar algumas dúvidas.r



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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A Esperança

Lagos, 22 de Dezembro de 2015
Sobre A Esperança
A Esperança é um dom que pode vir connosco ao nascermos se os nossos pais no-lo transmitiram ou não; mas também pode ser adquirido ao longo da nossa vida por interacção com os outros. Também, se nascemos com ela, a podemos perder como acontece com todos os outros dons que nos enriquecem: amor, paz, caridade, fé, …
Ninguém se faz a si mesmo, homens e mulheres, vamo-nos fazendo pela interacção com os outros física e indirecta através de livros, internet, ….
As palavras esperança, futuro, jovens estão interligadas, apesar de a esperança ser um dom de que precisamos toda a nossa vida na nossa caminhada para lá da morte.
Adoptando a perspectiva dos jovens, pode-se afirmar que foi criada uma geração com 34% de jovens desempregados até aos 25 anos, segundo os dados estatísticos mais recentes em Portugal, mas que se aproxima bastante da média da Europa, Estados Unidos e outros países da civilização ocidental.
A falta de trabalho surge sempre relacionada com o aumento da população e tem por consequência a emigração e é cíclico ao longo dos tempos da nossa história humana. Contudo pior do que não encontrar trabalho nos tempos que correm é a precariedade no trabalho que elimina as possibilidades de longo prazo na vida de cada um e que é transversal a todos os estratos sociais actualmente e que também é algo novo na nossa sociedade.
A precariedade foi inventada nos EUA com a desculpa de assim se dar trabalho a um número superior de homens e mulheres, aumentando a rotatividade nos postos de trabalho. Parecia uma medida positiva, mas na verdade tem sido destruidora e continua a sê-lo cada vez mais, abrangendo mais e mais áreas da nossa vida num tsunami destruidor que arrasa tudo e todos, incluindo a nossa cultura.
A precariedade destrói a ideia de futuro e isso leva-me às sociedades tradicionais africanas onde não existe a palavra “futuro” nas suas línguas porque não o havia nas suas vidas, apenas uma continuidade do mesmo; só têm a ideia de tempo presente e é isso que estamos a adoptar na nossa civilização ocidental. Quando os jovens são educados para a precariedade; o futuro não faz mais parte das suas vidas e a sua sociedade deixa de ter futuro.
A precariedade no trabalho leva à precariedade em tudo o que se relaciona com o ser humano e as suas relações entre si. A grande maioria dos homens e mulheres depende dos ganhos do seu trabalho para sobreviver e é isso que lhes dá estatuto social e estes ganhos pouco mais dão do que para as suas necessidades básicas, eliminando assim a possibilidade de poupança que também é um conceito relacionado com o conceito “futuro” e consequentemente também foi banido pelos jovens.
A precariedade traz a ideia de viver a curto prazo e destrói as ideias de “longo prazo” e “planear”. Os jovens actuais já foram educados neste conceito de precariedade e de aceitar a precariedade e de viver e conviver com a precariedade; então tudo o que vá para além da precariedade soa-lhes a estranho e obsoleto, ultrapassado; não aceitável. Assim o conceito tradicional de “família” não lhes faz mais sentido. A precariedade no trabalho que desemboca no desemprego com períodos cada vez mais longos sem trabalho; elimina a possibilidade de criar raízes, ter uma família com filhos para serem educados e orientados pelos pais. Como o vão fazer sem possibilidades económicas para isso? O próprio vai-se desenrascando, uns dias melhor outros dias pior; mas aos filhos? Como lhes dar essa vida? “É melhor não os ter” assim decidem. Inconscientemente o egoísmo, mesmo que altruísta, vai-se instalando, vai alastrando e tomando conta da sociedade sem futuro.
Quando o egoísmo tudo domina, já não há cultura e sociedade; há ilhas individuais que só vêem o curto prazo e não estabelecem links uns com os outros; estabelecem-nos, mas links efémeros, passageiros porque outra consequência da precariedade e do curto prazo é a falta de afectos. Onde há precariedade há curto prazo, há egoísmo que é inimigo dos afectos. Para os afectos é preciso tempo como nos informa Antoine Saint-Exupéry. O curto prazo não tem tempo para o tempo necessário para os laços afectivos.
A precariedade proíbe-nos de planear; só se pode viver o presente.
A precariedade proíbe-nos de amar; para amar precisa-se de tempo para o(s) outro(s)…
Eu tenho esperança de que a esperança sobreviva à precariedade.
Eu tenho esperança de que as gerações vindouras sobrevivam ao egoísmo.
Eu tenho esperança de que a esperança reconstrua a civilização da qual faço parte.
Eu tenho esperança de que os jovens passem a adoptar a esperança e terminem com a precariedade.
Eu tenho esperança de que os jovens aprendam com a raposa de Saint-Exupéry a criar laços e a mantê-los.r


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